UMA HISTÓRIA REAL, ONDE LEVA O LEITOR AO LONGO DE 46 ANOS DE LUTA PARA MANTER A IDENTIDADE DE UMA RELAÇÃO LGBTQIAPN+

UMA HISTÓRIA REAL, ONDE LEVA O LEITOR AO LONGO DE 46 ANOS DE LUTA PARA MANTER A IDENTIDADE DE UMA RELAÇÃO LGBTQIAPN+

MINHA MELHOR PARTE, de Jeff Santos, é uma narrativa autobiográfica sobre uma relação que atravessou quarenta e seis anos, dois países e profundas transformações sociais. 

A história começa em 1979, quando Jeff, então com dezoito anos, encontra Amilton dentro de um ônibus em São Paulo. Em um Brasil ainda sob a ditadura militar e em uma sociedade na qual uma relação entre dois homens precisava ser vivida com discrição, aquele encontro dá início a uma trajetória marcada por descobertas, conflitos familiares, preconceito, imigração, trabalho, amizade, conquistas e sucessivos recomeços. 

Do Brasil ao Canadá e, décadas depois, de volta ao Brasil, Jeff e Amilton constroem muito mais do que uma relação afetiva. Constroem patrimônio, círculos de amizade que se transformam em família, espaços de pertencimento e uma vida cotidiana compartilhada. Ao redor deles, passam personagens, casas, cidades e gerações, compondo também um retrato das mudanças experimentadas por homens LGBTQIAP+ que iniciaram suas relações em uma época de pouca visibilidade e quase nenhum reconhecimento social ou jurídico. 

O diferencial de Minha Melhor Parte, entretanto, está em não se apresentar como uma narrativa centrada exclusivamente na sexualidade de seus protagonistas. É, antes de tudo, uma história sobre duas pessoas construindo uma vida. A experiência LGBTQIAP+ surge organicamente dessa trajetória: na necessidade de se apresentarem como primos, na rejeição familiar, na formação de uma família escolhida, na busca por liberdade em outro país e, posteriormente, na possibilidade de formalizar juridicamente uma união que já existia havia décadas. 

A narrativa percorre mais de quatro décadas por meio da memória de Jeff. O relato pessoal se mistura às transformações do período, passando pela imigração para o Canadá, pela condição inicial de imigrantes sem documentação regular, pela legalização, pela conquista da cidadania canadense, pela ascensão profissional, pelo retorno definitivo ao Brasil e pela construção de uma maturidade que parecia finalmente permitir ao casal desfrutar tudo aquilo que havia conquistado. Há também um elemento estrutural que diferencia a obra. 

O livro começa ao nascer do sol, em uma praia, com Jeff conversando com Amilton. Diante do mar, ele decide voltar ao início e recontar a história dos dois. A partir daí, o leitor percorre com eles quarenta e seis anos de vida sem conhecer completamente as circunstâncias daquela conversa. Somente no encerramento, quando a narrativa retorna à mesma praia e ao mesmo nascer do sol, compreende-se integralmente a cena que abriu o livro. Essa estrutura circular transforma a memória no próprio mecanismo narrativo da obra e ressignifica retrospectivamente a leitura, sem fazer do desfecho o único motivo para acompanhá-la. 

Minha Melhor Parte situa-se no território da memória autobiográfica e da narrativa de vida, com forte potencial para leitores interessados em histórias reais, relações duradouras, imigração, família, pertencimento, envelhecimento e experiência LGBTQIAP+. Seu alcance, porém, não se limita a um público específico. A experiência particular de Jeff e Amilton conduz a temas universais: a construção de uma vida em comum, a passagem do tempo, a amizade, a família escolhida, o cuidado, a perda e aquilo que permanece depois de uma longa história compartilhada. 

Ao mesmo tempo, a obra possui valor de registro geracional. Jeff e Amilton pertencem a uma geração de homens que começou a viver sua relação em 1979, quando a realidade social era profundamente diferente, e chegou ao século XXI tendo testemunhado mudanças significativas na maneira como relações entre pessoas do mesmo sexo passaram a ser vistas e reconhecidas. Sem pretender funcionar como tratado histórico ou manifesto, o livro preserva essa transformação através da experiência cotidiana de quem a viveu. 

No centro de tudo permanece uma história muito simples e, justamente por isso, reconhecível: Dois homens se encontraram por acaso dentro de um ônibus. Escolheram permanecer juntos. E permaneceram por quarenta e seis anos. 

Minha Melhor Parte é o registro dessa escolha, e da vida inteira que coube dentro dela.