5 Despedidas e 1 Milagre: por que mandei parar a eutanásia de Iasus

5 Despedidas e 1 Milagre: por que mandei parar a eutanásia de Iasus

Por Tamara Nora Van Roy

Eu fui me despedir de Iasus porque tinha medo de estar confundindo amor com a incapacidade de perdê-lo.

Ele sofria. Eu estava exausta. E, quando até o veterinário em quem eu confiava falou em deixá-lo descansar, precisei encarar uma pergunta que nenhuma quantidade de amor tornava mais fácil: eu ainda estava lutando por ele ou já estava pedindo que suportasse mais dor por mim?

Pouco depois, eu mandaria interromper a eutanásia. Cinco doses já haviam sido administradas. Iasus continuava respirando.

Mas, antes de ser o cavalo de quem me despedi sem perdê-lo, ele era o cavalo que esperava uma cenoura perto da porta do meu quarto.

E é por aí que preciso começar.

Nosso vínculo foi construído a pé

Iasus chegou à nossa família depois de ser resgatado de uma cerca de arame farpado. As lesões eram graves. Sabíamos que ele nunca poderia ser montado.

Nunca houve, portanto, um passeio a esperar dele. Havia um cavalo para conhecer.

Durante sete anos, eu e meu marido cuidamos dele todos os dias. Iasus nos acompanhava pela propriedade, curioso, brincalhão, no passo mais lento que as lesões permitiam. Subia até a casa e aparecia perto do quarto à espera de uma cenoura. Tinha seus cochilos, sua maneira de procurar contato, seu jeito de participar da nossa vida sem precisar de convite.

Eu fui aprendendo a conhecê-lo nesse convívio. A reconhecer o que era descanso, o que era vontade de companhia, o que pertencia às limitações daquele corpo e o que não pertencia.

Amar Iasus também era respeitar o passo em que ele conseguia andar.

Não havia nada de extraordinário numa cenoura à porta do quarto. Era justamente isso que tornava aquela presença tão importante: ela já fazia parte do que eu entendia por estar em casa.

Na sexta-feira em que adoeceu, percebi uma diferença nas narinas, um pouco mais abertas.

Sete anos de convivência não tinham me tornado veterinária. Mas tinham me ensinado a perceber quando meu cavalo não estava como de costume.

O que eu ainda não sabia era quanto iria duvidar de mim antes que aqueles dias terminassem.

Entre a casa e o estábulo

Meu veterinário de confiança estava viajando. Outro profissional veio atender Iasus, enquanto tentávamos manter contato com quem sempre cuidara dele.

Nossa casa ficava acima dos estábulos, numa montanha. Lá embaixo não havia Wi-Fi. Para pedir ajuda, eu precisava subir, deixando meu marido com Iasus, e depois descer de novo.

A distância não era grande o bastante para me afastar do que estava acontecendo. Era apenas suficiente para me impedir de estar nos dois lugares em que eu precisava estar.

Perto dele, eu não conseguia falar com quem procurava. Perto do computador, eu não conseguia acompanhá-lo.

Depois da primeira noite, Iasus pareceu melhorar. Passou o sábado nos seguindo pela propriedade, e aquela presença tão familiar me trouxe um alívio que vinha acompanhado de vergonha. Talvez eu tivesse me assustado demais. Talvez estivesse vendo gravidade onde não havia.

À noite, ele estava deitado outra vez, cavando o ar com as patas.

A melhora tinha me feito desconfiar da minha preocupação. Agora, diante da piora, eu precisava voltar a confiar no que via.

Surgiu também um inchaço na garupa. Era novo, diferente das lesões antigas com que ele vivia desde o resgate. Aquela região acabaria sofrendo uma lesão profunda, que exigiria cirurgia e a retirada de parte da musculatura comprometida. A ferida que ainda hoje está terminando de fechar vem desse episódio — não do arame farpado.

Naqueles momentos, porém, eu tentava compreender o que acontecia enquanto acontecia.

Perguntava sobre o inchaço. Tentava entender o atendimento. Buscava outra ajuda. E media minhas palavras, porque também tinha medo de insistir demais e ficar sem um veterinário para atendê-lo.

Havia perguntas que eu precisava fazer e um medo enorme de fazer perguntas demais.

O cansaço foi estreitando minha capacidade de pensar. Cheguei a esquecer o nome de uma profissional com quem conversava havia anos. Um nome conhecido me escapava, enquanto a vida de Iasus exigia de mim decisões que eu não sabia como tomar.

Então meu veterinário de confiança, ouvindo o quadro à distância, falou em deixá-lo descansar.

Eu confiava nele. Não podia simplesmente afastar aquela opinião porque ela me feria.

E Iasus continuava com dor.

Fui me despedir.

A certeza não veio com instruções

Durante a eutanásia, sentada com Iasus, fui tomada por uma certeza que até hoje não sei explicar: ele ia sobreviver.

Eu já tinha duvidado das minhas observações, das minhas perguntas, da minha capacidade de decidir. Agora sentia aquilo com uma força que não combinava com nada do que estava acontecendo.

Levantei e corri até o computador para tentar falar com meu veterinário.

Precisava perguntar se estava ficando louca.

Não consegui contato.

Foi nessa sequência que me dei conta de que cinco doses já haviam sido administradas para a eutanásia. Iasus continuava respirando.

Mandei parar. Recusei que fossem buscar mais medicação.

Meu marido perguntou se eu realmente achava que ele ainda tinha chance.

Respondi que sim.

Escrever essa resposta é fácil. Naquela hora, ela me tornava responsável pelo que vinha depois.

Eu não tinha deixado de estar exausta. Não tinha me tornado veterinária. A certeza que me fizera levantar não explicava o que estava acontecendo dentro daquele corpo, nem me ensinava como ajudá-lo.

E amar Iasus continuava significando levar a dor dele a sério — inclusive depois de mandar parar.

Esse é o ponto em que uma história pode parecer resolvida para quem a ouve: o cavalo respirava, a eutanásia havia sido interrompida, alguém tinha acreditado nele.

Mas nós ainda estávamos lá.

Meu marido. Eu. Iasus precisando de ajuda.

O que não cabe na palavra “sobreviveu”

Hoje, Iasus está comigo em Morro Reuter. A ferida na garupa está quase fechada.

Depois de uma lesão tão profunda, da cirurgia e dos cuidados diários, esse “quase” significa muito. A recuperação não aconteceu no instante em que mandei parar. Ela precisou continuar, cuidado após cuidado, muito depois daquela decisão.

É essa história que conto em 5 Despedidas e 1 Milagre.

Conto como chegamos tão perto de perdê-lo enquanto tentávamos fazer o melhor por ele. As perguntas feitas com medo. A culpa por não ter reagido antes. O que acontece com a confiança da gente quando conhecer tão bem um animal não basta para saber como protegê-lo.

E conto o que ainda foi preciso fazer por Iasus depois de dizer que acreditava na sua chance.

Porque o cavalo ao meu lado não era apenas uma vida que eu queria salvar. Era uma presença que havia entrado devagar na minha: no ritmo das caminhadas, nos cochilos, na espera por uma cenoura. Eu conhecia aquele companheiro muito antes de precisar decidir por ele.

Meu marido tinha me feito uma pergunta. Eu havia respondido com uma palavra.

O que custou sustentar aquele sim está nas páginas do livro.