Do Varejo à Bienal de SP: As Janelas e Cicatrizes que formaram o "Círculo dos Corações Pisoteados
Nasci em Taubaté, no finalzinho de 1990. Nasci na terra dos guaianases e puris, do café, da literatura infantil e da Hebe Camargo (também da grávida). Cresci me mudando de cidade muitas vezes e aprendendo a enxergar o mundo de janelas diferentes, reformulando minha visão de tudo sempre que necessário para me adequar a uma nova realidade.
Mesmo com todas as idas e vindas de cidades, por vezes estados diferentes, foi no meu Vale do Paraíba que a leitura deu corpo e voz à minha escrita. Na biblioteca da pequena Natividade da Serra, comecei a passar minhas tardes lendo e emprestando livros que leria nos bancos da praça da matriz, perto da padaria do Zico e da antiga locadora que ficava atrás da igreja, e, às vezes, na prainha.
Onde o círculo começa a se desenhar
O professor Amir, que era responsável pela biblioteca, viu que eu tinha amor pelos livros. Às vezes conversávamos sobre as aulas de português, interpretação de texto, e acho que foi numa conversa sobre o “Poema de sete faces”, de Carlos Drummond de Andrade, que tínhamos lido em aula, que ele me disse que eu deveria começar a escrever também. Me desafiava a entregar um poema, vez ou outra, e a pegar livros fora do óbvio (que naquela época eram da Coleção Vagalume, que devo ter lido integralmente como boa criança dos anos 90, e o “Toda Mafalda”, de Quino, que ele me apresentou).
Mas com o tempo, disse que eu deveria ler também Rachel de Queiroz, Machado, Lima Barreto e todos os outros da nossa literatura, que me fizeram me apaixonar completamente pela literatura brasileira.
A música como pano de fundo da poesia e escrita
Foi também por lá, na mesma época, que conheci a música popular brasileira através da trilha sonora da novela “O Clone”, e, mesmo sem saber, comecei a misturar o amor pela escrita com a música cantada.
Quando voltamos para Taubaté no final de 2004, deixei meu coração em Natividade da Serra, entre as montanhas, as montanhas de livros da Escola Estadual Figueira de Toledo e os amigos. Mas voltei com uma semente plantada, que floresceria em silêncio, enquanto regada e cuidada diariamente com poemas, crônicas (que eu nem sabia ter esse nome) e tudo que eu escrevia nas minhas agendas e cadernos como forma de desabafo.
Com a chegada dos meus 14 anos, chegou também o trabalho, ainda que informal. Isso mudou a minha dinâmica com a leitura, onde já não era possível ler mais um livro por dia. Mas continuei como entusiasta da leitura, e a escrita passou a ser um refúgio do trabalho sofrido dentro das lojas de varejo de calçadão ou de shopping, onde trabalhei minha vida toda.
A gaveta de sonhos entreaberta
Ainda que cantando, escrevendo, compondo, sempre tive medo de dar a cara a tapa como artista, pois acabei focando em ter uma formação e profissão que pagasse as contas e que melhorasse meu salário no que eu fazia desde os 14. E foi assim que fui parar em RH e cursos de gestão. Só depois de terminar a faculdade, quando sabia ter para onde correr, que publicamente falei que escrevia, que fui para o conservatório fazer as primeiras aulas de canto fora da igreja e que cheguei a falar com uma editora sobre o “Círculo dos Corações Pisoteados”, que carrega esse nome desde que nasceu em 2016. A vida até então, tinha me obrigado a pensar que ofício e profissão quando não se nasce em berço de ouro, é o que paga contas.
Em 2017, comecei a cantar profissionalmente, em 2018 formei um duo que durou por 7 anos e, entre muitos trabalhos, produzimos especiais inclusive com fomento de edital cultural. Mas meu livro continuava na gaveta, enquanto eu continuava escrevendo diariamente sobre todas as cicatrizes que a vida nos faz, e sobre como nos reerguemos, ainda que com as rachaduras que tratamos de colar, vez ou outra deixando uma fresta entre elas para que entre uma luz na escuridão dos dias difíceis.
O que você vai encontrar na obra
O Círculo dos Corações Pisoteados não é só um livro de poesia. É um manual, um inventário de dores, quebras e desilusões, que nos ajuda a fazer um balanço de nós mesmos, sabendo quando é hora de encerrar a operação e recomeçar antes que o prejuízo seja ainda maior. O livro é dividido em blocos que fazem parte dos lutos e das lutas que não só o amor nos proporciona, mas a vida em seu fluxo normal:
- A frustração humana: Falar de um círculo onde corações são pisoteados é falar de onde a mais comum frustração humana habita, mas que todos nós tentamos evitar ou por vezes nomear.
- Identidade para a dor: Aqui você encontra nome, cor, cheiro e endereço para cada uma dessas dores passadas e superadas (ou em superação).
- A quadrilha drummondiana: Um certo conforto em saber que você não está sozinho nessa quadrilha drummondiana que gira incessantemente, nos mostrando que, às vezes feridos, ferimos; às vezes feridos, curamos.
A roda gigante e os novos voos
Numa reviravolta dessa roda gigante, hoje vivo na região de Los Angeles de onde escrevo sobre as saudades e a vida na minha Substack semanal.
O livro que começou lá atrás hoje ganha espaço: Círculo dos Corações Pisoteados está inscrito no Prêmio LOBA (Literatura e Obras de Autoras) na categoria poesia publicada, teve a inscrição aprovada no crivo do Jabuti 2026 na categoria escritor estreante - poesia, e estará presente na 28ª edição da Bienal Internacional do Livro de São Paulo, no stand da própria UICLAP.
Enquanto celebro esse momento e os encontros que a Bienal trará, fecho as frestas do passado e abro espaço para o novo: finalizo agora o meu primeiro romance, provando que as janelas mudam, mas a escrita permanece sendo o meu recôndito.
