Tem um Elefante na Sala!
Sobre aquilo que se instala antes mesmo de ser percebido.
Toda relação é feita de limites. Alguns defendemos com firmeza. Outros deslocamos sem perceber. É nas frestas dessas pequenas negociações que, muitas vezes, o "elefante" encontra espaço para entrar.
Foi dessa imagem que nasceu Tem um Elefante na Sala!, minha primeira dramaturgia publicada. A peça acompanha André e Otto, um casal que recebe o amigo Edgard, recém-separado, para um jantar aparentemente comum. Entre taças de vinho, lembranças e conversas despretensiosas, aquilo que parecia apenas uma noite entre amigos passa a revelar diferentes maneiras de compreender o amor, o cuidado, a autonomia e os limites de uma relação.
Não existem grandes reviravoltas. O conflito nasce justamente daquilo que costuma passar despercebido: uma frase interrompida, um silêncio prolongado, um gesto repetido, uma escolha aparentemente pequena.
Sempre me interessaram histórias em que quase nada acontece por fora e tudo acontece por dentro. Talvez porque a vida também funcione assim. Foi lendo autores como Clarice Lispector, Tennessee Williams e Tchekhov que compreendi que um silêncio pode carregar mais tensão do que um grito; que uma pergunta interrompida pode alterar o rumo de uma relação; que a verdadeira ação dramática nem sempre está no acontecimento, mas naquilo que ele desloca dentro de quem o vive.
Essa é, talvez, a dramaturgia que me interessa escrever. As primeiras versões da peça nasceram durante a pandemia e tinham uma protagonista mulher. Durante esse processo, procurei construir essa personagem em diálogo constante com mulheres próximas, reconhecendo os limites do meu olhar e buscando escrever com responsabilidade experiências que não eram as minhas. Anos depois, porém, outra pergunta começou a me acompanhar: por que, sendo um homem gay, eu ainda evitava escrever personagens que compartilhassem da minha própria experiência?
Essa mudança não diminuiu a universalidade da história. Pelo contrário. Amor, medo, rejeição e desejo pertencem à experiência humana. Mas cada corpo aprende a viver esses sentimentos de maneira singular. Reescrever a peça foi um exercício de honestidade com a história que eu podia contar, reconhecendo que meu lugar de fala também é um lugar de escuta, de memória e de experiência.
Mais do que uma dramaturgia sobre um casal, Tem um Elefante na Sala! é uma dramaturgia sobre convivência. Sobre as concessões que fazemos em nome do amor. Sobre os limites que negociamos para sustentar uma relação e sobre o instante delicado em que já não sabemos se estamos cuidando do outro ou atravessando um limite que, até então, acreditávamos ser inegociável para nós mesmos.
Talvez eu escreva porque acredito que toda relação guarda um elefante esperando o momento em que alguém tenha coragem de olhar para ele. Também acredito que o bom teatro não é aquele que oferece respostas, mas o que nos ajuda a formular perguntas melhores. Perguntas capazes de continuar ecoando muito depois do fim da cena.
É por isso que esta peça existe: para criar encontros. Sinto que, ao final da leitura, você também vai reconhecer alguns dos elefantes que habitam a sua própria sala.
— Leandro Moura
