O Saltério Perdido: quando o cotidiano se revela extraordinário

O Saltério Perdido: quando o cotidiano se revela extraordinário

Em O Saltério Perdido, Joângelo Souza nos convida a enxergar o cotidiano com outros olhos. O livro nasce de uma ideia simples, mas poderosa: cada capítulo se inspira em um salmo bíblico, não como sermão ou doutrina, mas como ponto de partida para histórias que se desenrolam em cenários urbanos, familiares e políticos. O resultado é uma obra que mistura crônica, ficção e reflexão, revelando como os pequenos acontecimentos podem carregar significados profundos.

Logo no início, o autor explica que não se trata de um livro religioso. O que ele propõe é uma releitura criativa: os salmos funcionam como gatilhos emocionais para narrativas que poderiam acontecer com qualquer um de nós. Assim, o Salmo 1 inspira a história de Carlos, que perde uma noite de sono entre vídeos e grupos de mensagens, enquanto o Salmo 2 dá origem ao dilema de Valéria, dividida entre a carreira dos sonhos e as pressões da política local. Cada capítulo é uma peça de um mosaico maior, em que personagens comuns enfrentam situações que os obrigam a refletir sobre escolhas, acasos e consequências.

O estilo de Joângelo Souza é marcado por uma linguagem acessível e coloquial, que aproxima o leitor dos personagens. Há humor e ironia, mas também momentos de lirismo e introspecção. O autor brinca com a verossimilhança: ora nos coloca diante de cenas que parecem saídas da vida real, ora insere elementos absurdos que nos fazem rir ou pensar. Essa oscilação cria ritmo e mantém a leitura envolvente.

Mais do que narrar histórias, O Saltério Perdido é um convite à reflexão. Ele nos lembra que o extraordinário se esconde nas coisas simples: no abraço inesperado, na música que nos conecta à memória, na conversa aparentemente banal que revela verdades profundas.

Este é o primeiro de cinco livros planejados pelo autor. Cada volume seguirá a mesma proposta — capítulos inspirados em salmos —, formando uma série que promete acompanhar o leitor em uma jornada de descobertas. Ao final, o que Joângelo Souza oferece não é apenas literatura, mas uma experiência: a de se reconhecer nos personagens e perceber que, por trás das rotinas e absurdos da vida, há sempre algo escondido esperando para ser descoberto.