O Evangelho no divã de Freud
Pode parecer estranho estabelecer um diálogo entre Freud e Jesus. Apesar de separados por quase dois mil anos, essas figuras têm muito mais em comum do que se possa imaginar: ambos são judeus, tinham um interesse especial pela alma humana e marcaram significativamente seu tempo e a história.
A psicanalista francesa Françoise Dolto afirmou que nada no ensino de Jesus estava em contradição com as descobertas de Freud, acrescentando que antes de serem um código moral, os Evangelhos são uma cartografia da alma humana. Para ela, "Jesus ensina o desejo e leva a ele".
Freud entendia a psicanálise como, além de uma teoria sobre a mente e um método psicoterapêutico, um instrumento de leitura das produções culturais humanas. Como disse Renato Mezan, "para Freud, a análise dos problemas culturais se inscreve na psicanálise enquanto ilustração de suas teses".
As imagens contidas nos Evangelhos funcionam como matrizes simbólicas de conteúdos e mecanismos que compõem o funcionamento psíquico, de tal modo que ilustram com riqueza ímpar os fenômenos mentais. Assim, a trave que não se vê no próprio olho enquanto o cisco no olho do outro é plenamente visível ilustra o mecanismo da projeção; o sujeito que se denomina Legião por ser habitado por muitos é a imagem das identificações com os outros e que nos constituem; o filho pródigo é a representação da operação de separação em relação ao desejo do outro, tão necessária para que o próprio desejo possa se manifestar.
As análises dos trechos são baseadas em autores como Freud, Dolto, Klein, Lacan, Winnicott, entre outros. Autores da filosofia também são evocados nas análises e reflexões: Nietzsche, Sartre, Wittgenstein.
O livro não discute o estatuto teológico dos textos, não afirmando nem negando a sacralidade a eles atribuída. Não é isso que está em jogo. O que está em jogo é, por exemplo, a pergunta de Jesus a um paralítico: "tu queres ser curado?", que pressupõe a possibilidade de o interlocutor não desejar a cura. Isso equivaleria à suposição de que o doente poderia obter algum tipo de satisfação com sua enfermidade. E não foi isso que Freud descobriu, que os sintomas neuróticos não traziam apenas sofrimentos, mas eles eram também uma forma de gratificação e, como tal, proporcionavam algum tipo de satisfação ao seu portador?
O Evangelho Segundo a Psicanálise percorre os textos de Mateus, Lucas, Marcos e João com a lente da teoria psicanalítica, de tal forma que o leitor vai se identificando com a leitura, depois da qual os Evangelhos nunca mais serão lidos da mesma maneira.

